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PSIQUIATRIA - SAÚDE MENTAL

Definindo Saúde Mental

(Texto traduzido e reduzido de The World Health Report - Organização Mundial de Saúde)

Estudiosos de diferentes culturas definem diversamente o que seja exatamente saúde mental. Os conceitos de saúde mental abrangem, entre outras coisas, o bem-estar subjetivo, a auto-eficácia percebida, a autonomia, a competência, a dependência intergeracional e a auto-realização do potencial intelectual e emocional da pessoa. Numa perspectiva transcultural, é quase impossível definir saúde mental de uma forma completa. De um modo geral, porém, concorda-se quanto ao fato de que a saúde mental seja algo mais do que a simples ausência de perturbações mentais.

É importante compreender a saúde mental e, de um modo mais geral, o funcionamento mental, porque aí reside a base sobre a qual se formará uma compreensão mais completa do desenvolvimento dos transtornos mentais e comportamentais.

Nos últimos anos, novas informações dos campos da neurociência e da medicina do comportamento trouxeram expressivos avanços à nossa maneira

de ver o funcionamento mental. Torna-se cada vez mais claro que o funcionamento mental possui um substrato fisiológico e está indissociavelmente ligado ao funcionamento físico e social e também aos ganhos em saúde.

Avanços nas neurociências

O Relatório sobre a Saúde no Mundo 2001 aparece num momento empolgante da história das neurociências. Estas constituem um ramo da ciência que se dedica à anatomia, fisiologia, bioquímica e biologia molecular do sistema nervoso, especialmente no que se refere ao comportamento e à aprendizagem. Avanços espetaculares na biologia molecular propõem uma visão mais completa dos blocos de que são formadas as células nervosas (neurônios). Esses avanços continuarão a proporcionar uma plataforma crítica para a análise genética das doenças humanas e contribuirão para novas abordagens de tratamento.

O conhecimento da estrutura e do funcionamento do cérebro evoluiu nos últimos 500 anos. À medida que prossegue a revolução molecular, ferramentas como a neuroimagem e a neurofisiologia permitem aos investigadores observar o funcionamento do cérebro humano vivo, enquanto sente e pensa. Usadas em combinação com a neurociência cognitiva, as técnicas de imagem permitem, cada vez mais, identificar as partes específicas do cérebro utilizadas para diferentes funções do pensamento e das emoções. O cérebro tem a responsabilidade de combinar informações genéticas, moleculares e bioquímicas com informações procedentes do exterior. Como tal, é um órgão extremamente complexo. Dentro dele há dois tipos de células:neurônios e neuroglias. Os neurônios são responsáveis pelo envio e recepção de impulsos ou sinais nervosos.

Conjuntamente, existem mais de um bilhão de neurônios no cérebro, compreendendo milhares de tipos diferentes. Cada um deles comunica-se com os outros por meio de estruturas especializadas denominadas sinapses. Mais de cem diferentes produtos químicos cerebrais, denominados neurotransmissores, comunicam-se entre si através das sinapses. No total, provavelmente existem mais de 100 trilhões de sinapses no cérebro. Circuitos formados por centenas ou milhares de neurônios dão lugar a complexos processos mentais e comportamentais.

 

No estado fetal, os genes determinam a formação do cérebro. O resultado é uma estrutura específica e altamente organizada. Esse desenvolvimento inicial pode ser também influenciado por fatores ambientais como a nutrição da gestante e o uso de substâncias (álcool, tabaco e outras substâncias psicoativas) ou a exposição a radiações. Após o parto e durante toda a vida, experiências de todos os tipos têm o poder não só de produzir comunicação imediata entre neurônios mas também de desencadear processos moleculares que remodelam as conexões sinápticas (Hyman, 2000).

Este processo, descrito como plasticidade sináptica, modifica, literalmente, a estrutura física do cérebro. Podem ser criadas sinapses novas, removidas sinapses velhas, fortalecidas ou enfraquecidas sinapses existentes. O resultado é a modificação do processamento de informações dentro do circuito, para acomodar a nova experiência.

 

 Antes do nascimento, na infância e durante toda a vida adulta, os genes participam numa série de interações inextricáveis. Cada ato de aprendizagem – processo que depende tanto de determinados circuitos como da regulação de determinados genes – modifica fisicamente o cérebro. A recente descoberta de que a plasticidade sináptica é vitalícia representa uma reviravolta das teorias anteriores, segundo as quais a estrutura do cérebro humano seria estática. Por notáveis que tenham sido as descobertas feitas até agora, a neurociência ainda está no início. Progressos futuros trarão uma compreensão mais completa de como o cérebro está relacionado com complexos processos mentais e comportamentais. Inovações no campo de estudo das imagens cerebrais permitirão, juntamente com estudos neuropsicológicos e eletrofisiológicos, visualizar em tempo real o trabalho do sistema nervoso. Tais imagens combinar-se-ão com a crescente capacidade de registrar o que ocorre em grande número de neurônios ao mesmo tempo; deste modo, será possível decifrar a sua linguagem. Outros avanços basear-se-ão no progresso da genética.

Avanços na medicina do comportamento

Têm-se verificado avanços não só na compreensão do funcionamento mental mas também no conhecimento de como essas funções influenciam a saúde física. A ciência moderna está descobrindo que, embora seja conveniente, para fins de discussão, separar a saúde mental da saúde física,

isso se constitui em uma ficção criada pela linguagem. Sabe-se que a maioria das doenças «mentais» e «físicas» é influenciada por uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Além disso, reconhece-se hoje em dia que os pensamentos, os sentimentos e o comportamento exercem um impacte significativo na saúde física. Da mesma forma, reconhece-se que a saúde física exerce uma considerável influência sobre a saúde e o bem-estar mental. A medicina do comportamento é uma ampla área interdisciplinar, que visa a integração dos conhecimentos das ciências comportamentais, psicossociais e biomédicas, pertinentes à compreensão da saúde e das doenças. Nos últimos 20 anos, a evidência científica acumulada, no campo da medicina comportamental, demonstra a existência de uma conexão fundamental entre saúde mental e saúde física. Pesquisas já demonstraram, por exemplo, que mulheres com câncer da mama avançado, que participam em terapia de grupo de apoio, vivem significativamente mais do que as que não participam em terapia de grupo; que a depressão antecipa a incidência de doença cardíaca; e que a aceitação realista da própria morte está associada com uma diminuição do tempo de sobrevida na SIDA, mesmo depois de levada em conta toda uma série de indicações preditivas de mortalidade.

De que forma o funcionamento mental e o físico se influenciam reciprocamente?

As pesquisas indicam duas vias principais, através das quais a influência mútua se exerce, no decorrer do tempo. A primeiro é a via direta, através

dos sistemas fisiológicos, como o funcionamento neuroendócrino e imunológico. A segunda acompanha os estilos de vida saudáveis. Entende-se por estilos de vida saudável uma ampla série de atividades, tais como comer com moderação, praticar exercícios regularmente e dormir adequadamente, evitar o tabaco, adotar práticas sexuais sadias, usar cinto de segurança e seguir à risca o tratamento médico. Embora sejam diferentes, as vias fisiológica e comportamental não são independentes uma da outra, dado que os estilos de vida saudável podem afetar a fisiologia (por exemplo, fumar e levar uma vida sedentária decrescem o funcionamento do sistema imunológico), ao passo que o funcionamento fisiológico pode afetar o comportamento saudável (por exemplo, o cansaço pode levar ao esquecimento de regimes médicos). O que resulta é um modelo abrangente de saúde mental e física, no qual os vários componentes se inter-relacionam e influenciam reciprocamente.

Referência: World Health Organization/The World Health Report 2001/Mental Health, New Understanding, New Hope.

 
 

 

 

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